Postagens

Dias de outono

Imagem
  Apesar disso, fez calor. Manhã de sol forte, pouco vento e algumas folhas pelo chão. As ruas estão meio que pintadas de castanho e dourado, graças ao tapete de folhas.  Mas o céu azul - desmente a estação. Bem como o calor. Depois do café, atravesso a cidade com pressa. E converso. Sozinha, como sempre... Falo em pensamento com a filha - que está longe, com o amigo - que não vejo há algum tempo e com ele - que se foi para sempre. Falo sobre o quê? Sobre o clima, a previsão do tempo, sobre o livro que estou lendo sobre o filme que quero assistir sobre minhas impressões, sensações. Revelo alguns segredos, planos e desejos. Ah... mas não pense que só eu falo. Eles respondem. Afinal, estamos no outono. Dalva Nascimento

Silêncio

Imagem
  Noite se iniciando e a hora vai pedindo um livro - ou dois. Escolhi para hoje Rubem Alves. Fui procurando em antigas leituras um trechinho que fala do silêncio que nos faz tanta falta nos dias tumultuados que vivemos. Gosto de silêncios. O silêncio em mim, o silêncio nos outros, o silêncio em volta de nós... Gosto também de lugares silenciosos. Não um silêncio qualquer, mas um silêncio que seja fecundo, um silêncio que desfaça os barulhos do coração. Um silêncio de repouso.  Gosto muito de pessoas silenciosas. "É isto que amamos nos outros: o lugar vazio que eles abrem para que ali cresçam as nossas fantasias. Buscamos, no outro, não a sabedoria, mas o silêncio da escuta; não a solidez do músculo, mas o colo que acolhe... Como seria bom se as outras pessoas fossem vazias como o céu, e não tão cheias de palavra, de ordens, de certezas. Só podemos amar as pessoas que se parecem com o céu, onde podemos fazer voar nossas fantasias como se fossem pipas..." (Rubem Alves) Dalva Na...

Em fins de tarde, como este

Imagem
  Há fins de tarde, como este, em que me sento na velha penteadeira, defronte ao espelho, esperando que meus olhos voltem a ser os meus olhos.  Que brilhem, refletindo minha alegria, que espelhem aquela menina que fui a correr pelos corredores da casa da avó, guiada pelo aroma do mate quentinho que vinha da cozinha. Em fins de tarde, como este, olho o espelho que me devolve a  luz e o norte. Atrás de mim vejo refletidas as laranjeiras do quintal, carregadinhas com os frutos, amarelinhos, que me lambuzam as mãos e o rosto, e me deixam na mão o seu cheiro pelo resto do dia. Em fins de tarde, como este, não cobro do espelho nem a vida e nem as rugas. Nem escrevo nele, com o dedo, o seu nome, devagarinho. Em fins de tarde, como este, me olho bem devagar, devagar, devagar... e chego até a reconhecer a poesia e os sonhos,   os castelos e os deuses,  e a profundeza do mar sem fim - todos estes em minha alma. Em fins de tarde, como este, o velho espelho me responde...

De cappuccinos e croissants

Imagem
  Fico aqui, um longo tempo, ouvindo o eco de nossas palavras pela casa vazia. Ouço também o eco de nossas brigas que estão principalmente no nosso quarto. Você se foi de forma súbita, mas mesmo assim não fiquei surpresa nem estarrecida, apenas me senti perdida em meio às angustias da vida.  Sabe, mesmo sem você continuo andando pelos caminhos que trilhamos juntos. Vou sempre àquela lanchonete do Cachambi e peço o mesmo cappuccino que costumávamos beber todas as manhãs. E levo pra casa aquele croissant que você adorava. Andando pelo Shopping sempre que me deparo com um casal feliz na fila do cinema lembro da gente. Lembra daquele dia que paramos na estrada e entramos naquele ateliê em Sampaio Correa? Que ficamos encantados diante de uma construção com uma veneziana de janela em patina esverdeada? Ainda posso ver seu rosto admirado de susto quando perguntei para a artista se podia fotografar seu trabalho e o seu sorriso quando ela me disse que sim... Sempre que passeio em Jacon...

Fica sempre aqui

Imagem
    Fica aqui, perto de casa, perto de mim. Fica sempre por aqui, por perto. Aqui, onde o nosso céu é mais azul, as flores mais cheirosas, as árvores têm mais frutos e os animais andam devagar. Fica aqui, anda comigo. Me dê a mão enquanto teus olhos se demoram mais um pouco naquele monte. Sente esse arrepio que corre em mim, enquanto o sabiá canta e eu te digo baixinho o quanto te quero. Sabes, aqui beijei o teu cabelo, enrolei meus dedos nele. Cheirei aquele lugar em que teu pescoço se junta ao ombro e desvaneci-me em ti. Cantei-te todas as minhas canções e dancei contigo os passos de uma vida inteira.  Tu sabes que sem ti me perco de tudo o que há em mim. Mas se ficamos aqui, perto de nossa casa perfeita, onde embalei-me todo em ti, só aqui consigo sossegar e acalmar o medo que cresce perigoso em mim. Sabes que sem o teu calor nem sei dizer quem sou. Só aqui, dentro destas paredes consigo respirar. Faça-me esse favor. Não se afaste daqui, nem permita que e...

Michael

Imagem
  Não tem como evitar: o domingo sempre me leva de volta à casa da minha avó. Aos grandes almoços com a família, quando esta era grande. O quintal, com as brincadeiras das crianças e as criações da casa: muitas galinhas, patos, gansos e marrecos. Como toda criança, ficava muito feliz quando os ovos chocavam e nasciam os pintinhos. Ficava observando e de toda a cria sempre escolhia um e dizia prá minha avó: esse aqui vai ser meu, prá brincar comigo, pode? Minha avó sempre dizia a mesma coisa: pode sim, mas já não chegam os seus primos e os seus amigos prá você brincar? E eu ria, e ficava feliz por saber que tinha tantas opções. Bom, o meu escolhido começava a crescer, trocava a penugem pelas penas e mudava de cor. Mesmo no meio de tantas brincadeiras eu gostava de acompanhar o crescimento deles, e minha avó sempre botava um anelzinho no pé do meu "escolhido". Ele ganhava direito até ao batismo, ganhando um nome, geralmente de um artista da época. Lembro de um especial, ...

Escrevo...

Imagem
  Não sei qual foi o dia da semana em que nasci. Sei que foi à noite, às 20 horas. Não sei se chovia, se era noite clara, com lua. Mas de uma coisa eu sei. Nasci com uma camada muito fina de epiderme. Tenho os nervos muito expostos. Com pouca ou nenhuma proteção, estão à mercê de tudo. E de todos. Por isso tive a vantagem de ter, com minha avó, que me criou, um relacionamento muito íntimo... eu era muito mais sensível ao carinho do que as outras crianças. Daí a razão desses meus olhos que vazam tanto, quando estou diante de carinhos e doçuras. Não só os carinhos, mas também as dores. Sempre fui intensa no sentir. Prazeres os mais plenos e dores as mais pungentes. Sensíveis na pele, não apenas os meus, mas os dos que me são caros. Sofro por eles suas dores e me alegro com seus prazeres, daí essa facilidade de compreender a alma. Sei pouco do que me reserva o futuro, ando na fé do que Deus reserva para mim. Mas sei que nasci para transcender, para amar e, amando, sofrer. E s...